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Burnout nos Enfermeiros: como reconhecer os sinais precoces antes de chegar ao limite

Alguma vez terminaste um dia de estudo ou de estágio a sentir que não tens energia sequer para pensar no que vais fazer no dia seguinte?



Muitos estudantes de enfermagem entram na profissão com a motivação certa e a vocação e vontade de cuidar do outro. Mas ao longo do percurso académico, e à medida que o curso se torna mais prático e exigente surge um medo silencioso:

“E se um dia eu deixar de conseguir lidar com tudo isto?”


Esse receio tem nome.

Chama-se Burnout.


Nos últimos anos, o Burnout passou a ser reconhecido como um dos maiores riscos psicossociais nas profissões ligadas à área da saúde, afetando particularmente os enfermeiros.


Aprender a reconhecê-lo cedo e a aceitar que essa pode ser a nossa realidade não é sinal de fraqueza, mas sim de ética e consciência profissional.



O que é o Burnout?


O Burnout é uma síndrome ocupacional associado ao stress crónico relacionado com o trabalho, quando as estratégias de adaptação deixam de ser suficientes para lidar com as exigências profissionais.


De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), caracteriza-se por 3 dimensões principais:

  • Exaustão emocional;

  • Despersonalização;

  • Diminuição da realização profissional.



Contudo, para melhor compreenderes verdadeiramente o Burnout, é importante perceber primeiro o que é o stress.


Segundo a definição clássica de Hans Selye (1976), o stress, externo ao individuo, é uma resposta inespecífica do corpo a um qualquer estimulo, independentemente da sua natureza.



O que acontece ao nosso corpo quando estamos sob stress?


Se quiseres saber mais sobre a fisiologia do stress, aconselho-te a ver este vídeo.

Vais perceber no final deste que o stress não é apenas uma sensação psicológica, mas sim uma resposta biológica complexa do organismo.


Quando uma pessoa enfrenta um agente stressor, o organismo ativa vários sistemas fisiológicos, incluindo:

  • sistema nervoso simpático

  • eixo hipotálamo-hipófise

  • libertação de várias hormonas relacionadas com a resposta ao stress


Esta resposta tem como objetivo preparar o organismo para lidar com a ameaça.


Segundo o modelo clássico do stress biológico, desenvolvido por Selye, esta resposta ocorre em três fases distintas, denominadas a Síndrome da Adaptação Geral (SAG):


1. Reação de alarme

O organismo reconhece o agente stressor e ativa a resposta de luta ou fuga. Há uma libertação de grandes quantidades de adrenalina e cortisol.


2. Fase de resistência

O corpo tenta adaptar-se ao fator de stress, voltando a um estado de equilíbrio.


3. Fase de exaustão

Quando o stress se mantém durante muito tempo, os recursos adaptativos do organismo, que tentam chegar ao equilíbrio, esgotam-se, podendo daí surgir problemas físicos e psicológicos.

É nesta fase prolongada de exaustão que pode surgir o Burnout.



Porque é que o burnout nos enfermeiros é tão comum?


A enfermagem combina múltiplos fatores que explicam porque é que o burnout nos enfermeiros é tão frequente.


Entre os mais relevantes estão:

  • Elevada carga de trabalho;

  • Contacto frequente com sofrimento humano;

  • Tomada de decisões clínicas complexas;

  • Turnos irregulares;

  • Responsabilidade na segurança do doente.


Além disso, fatores pessoais, valores, experiências e perceções próprias das diferentes situações podem potenciar o Burnout em alguns enfermeiros.



Sinais precoces de Burnout que muitos enfermeiros ignoram


O Burnout, como já viste raramente aparece de forma aguda. Alguns dos seus sinais mais frequentes incluem:

  • Exaustão persistente

Sensação constante de fadiga física e emocional.

  • Irritabilidade aumentada

Situações pequenas passam a gerar frustração intensa.

  • Diminuição da empatia

O profissional começa a sentir dificuldade em envolver-se emocionalmente com os doentes.

  • Sensação de trabalhar em “piloto automático”

  • Dúvidas constantes sobre a própria competência


Estes sinais vão aparecendo em maior expressão, à medida que os recursos de adaptação se esgotam.


Burnout vs cansaço: qual a diferença?


Mas calma nem todo o cansaço é Burnout. E sim, o cansaço “normal” faz parte de todo o estudante de enfermagem e enfermeiro.

Descobre qual a diferença entre estes dois conceitos.


Cansaço

Burnout

Surge após um turno exigente

Desenvolve-se progressivamente

Melhora com descanso

Persiste mesmo após descanso

Não altera identidade profissional

Afeta autoestima e motivação

Energia recupera

Sensação contínua de esgotamento



O papel do coping na adaptação ao stress


Uma das formas mais importantes de lidar com o stress é através da implementação de estratégias de coping.


Coping refere-se ao conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais que uma pessoa utiliza para gerir situações stressantes e recuperar o equilíbrio psicológico.


Segundo o modelo de Lazarus e Folkman (1984), o coping envolve:

  • Avaliação da situação e do agente stressante;

  • Interpretação do significado do evento, para definir se ele é uma ameaça, dano, perda ou desafio ao seu bem-estar;

  • Mobilização de recursos pessoais (físicos, sociais, psicológicos) para lidar com a situação.


Existem diferentes tipos de estratégias de coping, umas focadas no problemas e outras focadas na emoção.


Algumas das mais frequentes incluem:

  • Resolução de problemas;

  • Procura de suporte social;

  • Autocontrolo emocional;

  • Reavaliação positiva da situação;

  • Afastamento temporário da fonte de stress.


Práticas como relaxamento, meditação, comunicação interpessoal e resolução ativa de problemas são frequentemente apontadas como estratégias úteis para gerir o stress.


Quando pedir ajuda


É importante procurar apoio quando surgem os seguintes sinais:

  • Exaustão persistente;

  • Perda de motivação profissional;

  • Dificuldade em desempenhar tarefas habituais;

  • Alterações do humor ou do sono.



Considerações Finais


O burnout nos enfermeiros não surge de forma repentina. Para que ele se instale, muitos sinais de alerta foram ignorados ao longo do tempo. É o resultado de um stress prolongado e de uma adaptação insuficiente às exigências do ambiente profissional, que afeta tanto estudantes como profissionais.


Aprender a reconhecer os sinais precoces permite:

  • Proteger a saúde mental;

  • Manter qualidade nos cuidados prestados;

  • Preservar o sentido de propósito na profissão.


Ser enfermeiro implica cuidar dos outros.

Mas também implica algo igualmente importante e imprescindível:

Aprenderes a cuidar de ti próprio.


Referências Bibliográficas:

  1. Dias, E. N., & Pais-Ribeiro, J. L. (2019). O modelo de coping de Folkman e Lazarus: aspectos históricos e conceituais. Revista Psicologia e Saúde11(2), 55-66. https://doi.org/10.20435/pssa.v11i2.642

  2. Oliveira, J., Ferreira, P., Gonçalves, V. (2022). Fatores de risco de burnout nos profissionais de saúde em contexto hospitalar - Revisão Sistemática da Literatura. https://www.acenfermeiros.pt/articles/document/62221f83e401a405924750.pdf

  3. Organização Mundial de Saúde. (2019) A Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (11 Edição). https://icd.who.int/

  4. Dallacosta, F. M. (2019). Stress and burnout syndrome in health professionals. International Journal Family & Community Medicine, https://doi.org/10.15406/ijfcm.2019.03.00154

  5. Laya e samantha. (2021) Síndrome de burnout em profissionais da saúde: revisão integrativa. https://doi.org/10.1590/1983-80422021291456

 
 
 

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